Artes
plásticas

Artes
Plásticas

Café Mundo conta com variada seleção de obras de artes visuais que tratam do tema nas mais distintas linguagens e concepções, de pinturas do início do século XX, que representam o ciclo do café no interior de São Paulo, a uma instalação contemporânea especialmente projetada para a mostra. Mais do que inventariar a presença da temática do café na história da arte brasileira, a exposição traz a público obras que integram a iconografia clássica do café, confrontando-as com trabalhos ainda pouco debatidos.

Assim, a mostra convida a todos a conhecer as diversas perspectivas desde as quais o tema foi tratado por artistas ao longo dos últimos dois séculos.

Ainda que as artes visuais perpassem toda a exposição, uma sala dedicada à pintura apresenta seis obras de Antônio Ferrigno pertencentes ao acervo do Museu Paulista da USP; duas obras de Aldir Mendes de Souza; um desenho de Candido Portinari, do acervo da FAAP, e uma obra de Manabu Mabe, da Coleção Santander Brasil. As pinturas são confrontadas com exemplos da produção visual contemporânea, como o livro de artista de Katia Fieira, do acervo da FAAP, uma pintura sobre um saco de café de Mulambö, do acervo do Museu de Arte do Rio (MAR), e um vídeo de Naiana Magalhães.

Em uma sala exclusiva, contamos, também, com uma instalação de Raquel Fayad, concebida especialmente para a exposição.

Caipira-Preto

Antônio
Ferrigno

Salerno, Itália, 1863
— Salerno, Itália, 1940

Pintor, veio para o Brasil em 1893. Natural da costa amalfitana, carregava uma tradição naturalista de representação, que adquire em sua obra um tom realista. Além das pinturas de paisagem tradicionais do sul da Itália, Ferrigno se interessava por retratar pessoas comuns. Em São Paulo, logo chamou atenção de outros pintores italianos e da elite cafeeira. Foi convidado a representar suas fazendas em telas, apresentadas em grandes feiras ao redor do mundo. Café Mundo reúne a sequência mais importante produzida pelo pintor sobre o tema, com seis telas que ilustram didaticamente o processo de cultivo do café para exportação e consumo. Realizadas em 1903 na fazenda Santa Gertrudes, as telas são um marco na divulgação do café paulista no exterior, além de compor uma documentação histórica única dessa atividade econômica, fulcral na entrada de São Paulo no cenário econômico do Brasil e do mundo.

Caipira-Preto

Aldir Mendes
de Souza

São Paulo/SP, 1941
— São Paulo/SP, 2007

Dividia-se entre as profissões de pintor e de médico. Artista autodidata, dedicou-se à pintura até o fim da vida. Nos anos 1970, chegou a usar imagens de raio X em seus trabalhos, aproximando suas duas atividades. Na pintura, caminhou do uso da cor com volumes parcos para uma pesquisa cromática relacionada à criação de campos de perspectiva. O cafezal é um tema constante, desde o início de sua trajetória. É a partir dessas pinturas que o artista abandona a figuração. A mostra apresenta duas telas da década de 1970 que têm como foco o jogo geométrico da perspectiva associada ao colorismo – e o cafezal como tema, do qual resultam outros sentidos. Nas duas, Mendes de Souza representa a plantação em esquemas rigorosamente formais, o que vai de encontro à concepção de uma paisagem que não é natural, mas artificial e industrial, e na qual a oposição entre campo e cidade parece inexistir. A relação mecânica entre a imagem geométrica e a pintura feita à mão é o cerne dessas pinturas.

Leia mais sobre o artista em https://www.aldir.com.br/

Caipira-Preto

Kátia
Fiera

São Paulo/SP, 1976

Artista visual, tem a cidade como um de seus eixos de pesquisa. Recorre ao desenho, à colagem e mesmo à concepção de montagens, em papel ou livro, com volume vertical, para estabelecer uma relação com a grandeza construtiva que caracteriza o urbano. A exposição inclui sua obra-livro Viagem pitoresca ao Boulevard Cor de Café (2016), que é exposta aberta, na vertical, convidando o público a percorrer os traços da artista. O livro de Katia Fieira propõe um vagar e um olhar despretensioso sobre situações sobrepostas – as esquinas, os cafés, pessoas conversando, a forma das janelas e dos frisos – em um passeio que parece acidental, mas é deliberado. O título do trabalho remete à principal obra de Jean-Baptiste Debret, um dos principais artistas da Missão Artística Francesa, que instaurou a Academia Imperial de Belas Artes no Brasil no início do século XIX. Debret ilustrou a vida cotidiana do Rio de Janeiro, em uma produção visual que marca a iconografia do país da época. Katia Fiera faz um movimento inverso: brasileira, ilustra a Paris de Debret, destacando a forma como as esquinas de Paris, seus cafés e sua população tornam-se diferentes conforme se caminha para a periferia da cidade. Diferentemente de Debret, o olhar expresso em seu livro não é exótico, mas afetivo. Katia não busca a clareza narrativa das imagens, mas traz à tona as sobreposições de camadas que são próprias da experiência social urbana.

Leia mais sobre a artista em https://www.katiafiera.com/

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Candido
Portinari

Brodowski/SP, 1903
—Rio de Janeiro/RJ, 1962

Foi um dos mais influentes pintores modernistas brasileiros. Ficou conhecido pela pintura de temática social e pelas grandes obras em edifícios públicos, decisivamente influenciadas pelo modernismo mexicano e por sua tradição muralista. O final da década de 1930 foi um momento especial na trajetória de Portinari, quando passa do cavalete para o painel ou a parede. É dessa época o desenho Cafezal (1938), exposto na mostra. Poucos anos antes, Portinari concluíra a pintura Café (1934), hoje no Museu Nacional de Belas Artes. Segundo o crítico Mário Pedrosa, ela marca a produção do artista sobre tela; sua coesão formal e sua estrutura lógica ecoariam em outras pinturas importantes de Portinari, como O lavrador de café, também de 1934. Esta última destituiu o retrato burguês de seu sentido vazio, dando ao gênero uma composição com sentido social. O desenho Cafezal é um trecho da pintura Café de 1934, aumentado e alterado, que resultaria em sua primeira encomenda de mural, para o edifício Gustavo Capanema, ou Ministério da Educação e da Cultura, peça fundamental do patrimônio da arquitetura moderna brasileira no Rio de Janeiro. Portinari pintou os ciclos econômicos agrários do país nas paredes do edifício, enfrentando os dilemas da expansão da pintura de cavalete e dos aspectos sociais da obra. O desenho é um estudo para este mural, que coincide com uma transição central na trajetória artística, e mesmo política e pública, de Portinari. Mais uma vez o lavrador de café é representado, mas agora sem o estigma do cavalete que o pintor enfrentava.

Leia mais sobre o artista em http://www.portinari.org.br/

Caipira-Preto

Manabu
Mabe

Kumamoto, Japão, 1924
—São Paulo/SP, 1997

Foi talvez o mais conhecido pintor nipo-brasileiro, alcançando grande sucesso com suas pinturas abstratas nos anos 1960. Mabe e Tomie Ohtake foram os maiores expoentes da abstração lírica e da pintura gestual no Brasil. Nessa mostra, uma grande tela figurativa do artista revela aspectos de sua vida e de sua trajetória antes do êxito das composições abstratas. Mabe veio do Japão aos dez anos de idade, com sua família, e viveu em uma fazenda de café até se mudar para São Paulo, em 1957. A pintura Colheita de café (1953) é da fase em que o pintor era também lavrador. Mesmo nessa época, ele mantinha contato com outros artistas nipo-brasileiros de São Paulo, recebia informações e participava de exposições. Ainda não encontrara a plenitude que teria na pintura abstrata, mas se aventurava pelas formas modernistas, principalmente no fauvismo e no cubismo. Colheita de café não apenas remete à influência do modernismo brasileiro, como é possível relacioná-la ao aspecto monumental da pintura modernista, que teve seu auge na década de 1940, com Portinari. Contudo, a tela carrega múltiplas referências, que vão do cotidiano do povo japonês emigrado para o Brasil à síntese da linguagem modernista e à sua aproximação da temática social.

Leia mais sobre o artista em http://www.mabe.com.br/ e http://www.museumanabumabe.com.br/

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Naiana
Magalhães

Fortaleza/CE, 1986

Artista multimídia, vem desenvolvendo um trabalho sobre o tempo, não na forma abstrata, mas tratando de sua percepção histórica e experiência concreta. Em seus vídeos, essas questões são abordadas tanto na forma quanto na sobreposição de camadas históricas. Extraindo do contemporâneo seu passado – longínquo ou imediato –, a artista ressignifica sentidos que parecem querer apagar-se. A exposição inclui seu vídeo Café Colonial, que trata com singeleza de temas importantes. O título remete à história do país e, ao mesmo tempo, à ideia de abundância presente no café da manhã de estâncias brasileiras. A mistura do leite e do café sobre a pele nos lembra de imediato discursos de miscigenação e o apagamento do trabalho árduo dos escravizados e da política eugenista de embranquecimento da população – que respingou nas lavouras de café e na imigração. Apesar de suscitar essas reflexões, o vídeo parece uma observação sem outros sentidos, até mesmo pictórica. Mas seus elementos e nossa própria compreensão identitária não permitem uma leitura ingênua da obra.

Leia mais sobre a artista em: https://naianamagalhaes.com/

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Raquel
Fayad

Atibaia/SP, 1968

É artista e gestora de museus. Formada em artes visuais, dedica-se à pintura e à instalação multimídia, delimitando um campo de atuação calcado nas relações afetivas e na sinestesia da memória. Campo amor, uma de suas principais obras, exemplifica seu processo de transformar experiência subjetiva em matéria. Nela, toneladas de café são espalhadas sobre o chão para criar a vivência sensorial de um terreiro. Em outros trabalhos relacionados ao café, a artista reúne guardanapos que foram embebidos sobre o que restou da bebida em uma xícara; secos, estendidos e agrupados, eles compõem pinturas que dialogam com a espontaneidade das formas, em uma reconstituição pictórica do ato de beber o café. Para Café Mundo, a artista concebeu a instalação Flor do desejo, que ocupará uma sala com milhares de xícaras de café empilhadas. As xícaras vazias reconstituem a sensação de preparar o café; a ausência da bebida remete a um momento de encontro e de movimento que não se constituem, mas ficam como potência viva. Sons de tilintar saem dos montes de xícaras; eles nos lembram de sua finalidade, mas também acionam, de forma sinestésica, o desejo pela bebida que nos é tão cotidiana. Ao mesmo tempo, as xícaras brancas aludem à cor característica das flores do café, que antecedem os grãos e têm um aroma peculiar, sensível apenas por quem alcança a memória do cafezal.

Saiba mais sobre a artista em https://www.raquelfayad.com/

Caipira-Preto

Mulambö

Saquarema/RJ, 1995

É um artista visual que trabalha com materiais e linguagens diversos, de pintura mural a arte digital. Sua produção é marcada pelo desejo de encontro com sua comunidade natal, à qual retornou após sua formação universitária. Interessado em produzir trabalhos que pudessem ser vistos e apreciados por pessoas comuns, passou a fazer pinturas e colagens com materiais que encontrava na cidade, usando papelão, muros e até pranchas de surf como suporte. O artista mais jovem da exposição é também quem traz a ela o gesto político mais contundente. A obra escolhida trata diretamente da ambiguidade da situação do trabalhador negro que é também artista contemporâneo. De tom irônico, Arte preta tipo exportação representa o perfil de um homem negro sob o termo produzir. A pintura é feita sobre juta, mesmo material empregado nos sacos usados para carregar café e outros produtos agrícolas. A obra reconecta o contemporâneo ao passado pouco feliz do trabalho extenuante, da escravização e das demais mazelas que o cafezal legou, como sequela, à sociedade hoje.

Leia mais sobre o artista em https://joaodamotta.wixsite.com/mulambo

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Ismael Ivo

São Paulo/SP, 1955 – São Paulo/SP, 2021

Ralf Schmerberg

Ludwigsburgo, Alemanha, 1965 -

O vídeo traz a impactante performance I Had Too Much Coffee (em tradução literal, “bebi café demais”), do coreógrafo e dançarino Ismael Ivo, realizada em Berlim, em 2002. Vestido de branco, entre louças também brancas, Ivo começa fazendo gestos de servir café nas xícaras. Aos poucos, a dança ganha um caráter mais agressivo. O movimento se intensifica e a ação se transforma numa catarse em que o café se derrama manchando roupas, xícaras e paredes. O vídeo nos leva a questionar o sentido de servidão do homem negro e sua relação estabelecida com o café. É uma versão estendida e inédita, produzida especialmente para Café Mundo. Em breve estará também no site.

 

Texto do diretor Ralf Schmerberg:

I Had Too Much Coffee (Tomei café demais) é um vídeo que fiz em 2002 com o coreógrafo e dançarino Ismael Ivo. A ideia era criar uma imagem que brincasse com o consumo de café no mundo.

A obra de Ismael Ivo como dançarino e coreógrafo sempre me inspirou. Conheci Ismael no Rio de Janeiro, em 2000, quando ele visitou o set onde eu estava granvando uma sequência de meu filme POEM com a grande bailarina e coreógrafa Marcia Haydée. Márcia e Ismael eram velhos conhecidos, e nos divertimos muito juntos. Quando ele foi embora, eu já sonhava em trabalhar com ele em algum projeto cinematográfico.

I Had Too Much Coffee era a ideia certa para chamar Ismael, que vivia mais tempo em Berlim na época. Ele imediatamente concordou em fazer o vídeo, e produzimos tudo em poucos dias. Montei um set no estúdio e o convidei para improvisar com as xícaras e o café. Conhecendo Ismael, sabia que não precisava pensar na direção. Bastava oferecer a ele uma atmosfera em que pudesse mergulhar.

Ele estava cheio de ideias e a coisa toda simplesmente fluiu. Foi um momento de muita diversão e risadas. Eu diria que foi um dia mágico – de fazer várias formas de arte se fundirem umas nas outras.

O coreógrafo e dançarino Ismael Ivo descreveu uma trajetória brilhante, de suma importância na dança. Nos 33 anos em que viveu na Europa, trabalhou com importantes diretores e coreógrafos, ajudou a fundar o festival internacional de dança ImPus Tanz, em Viena, dirigiu a seção de dança da Bienal de Veneza e foi o primeiro negro e estrangeiro a chegar a ser diretor do Teatro Nacional Alemão, em Weimar. Em 2017, ele retornou ao Brasil para assumir a direção do Balé da Cidade de São Paulo. Faleceu no dia 8 de abril de 2021, aos 66 anos, vítima de complicações da Covid-19.